quarta-feira, maio 23

O dia em que me reconheci





Conhecer pessoas. Processo natural, dinâmico, diário. Nos primeiros encontros da vida eu já fui àquela menina ‘’que parecia se achar, mas que depois se tornou gente boa’’; essa foi disparada a principal confissão sobre a primeira impressão que causei. - Ufa, ne?Que bom que eu tenho cara de nojenta, mas bem lá no fundo eu sou legal.

Mas poucas vezes sabemos o que ‘’causamos’’ (nas) pessoas depois do singelo: Prazer, Náyra!. Poucos se tornam próximos, ou amigos o suficiente para ter a coragem de lhe dizer. E foi nesse ponto que começou essa inquietação, que vai bem longe, vou logo avisando.

Quantos e quantos eu conheci no colégio, na festa, na casa do amigo, na vizinhança, na academia, no trabalho, no ônibus, na igreja, nas filas da vida. E quantos e quantos tiveram momentos de “encantamento” e de “afastamento”. Conversa vai conversa vem, descobrem que eu sou desbocada. Conversa vai conversa vem, eu sou divertida. Conversa vai conversa vem, eu sou problemática demais. Conversa vai conversa vem, eu sou hipocondríaca. Conversa vai conversa vem, eu não moro bem. Conversa vai conversa vem, eu vou ser jornalista... E por aí você vai atraindo e afastando as pessoas, que saem da sua vida da mesma maneira que chegam: sem avisar; colocando vc na mesma situação dos segundos em que antecederam o primeiro encontro: a de não significar nada.

Mas há primeiros encontros devidamente marcantes, e que podem ser considerados verdadeiros presentes da vida, já que dela o que levamos são apenas as marcas deixadas pelas pessoas, por um momentinho vivido, breve, mas especial; pelas palavras trocadas, gestos naturais, e que lhes soaram surpreendestes, enfim, não as levamos, por mais que às vezes, em uns passos da vida, desejemos ‘ter ‘ alguém.

E mesmo com essa pouca idade eu acredito que não é fácil, pelo menos não é de costume você “se ver” em alguém como espelho, não to falando de identificação, mas de vida, de, sei lá... Num desses primeiros encontros eu conheci uma mocinha, pra muitos não vai ser surpresa o local: na enfermaria de um hospital. Bom, nem precisa dizer que eu estava internada, inclusive essa foi uma das minhas últimas internações, em meados de outubro do ano passado...

A mocinha que me proporcionou um dos momentos mais angustiantes e especiais, talvez o mais especial da minha vida, até então, se chamava Nayra. Ela, assim como eu, era renal crônica, mas com um quadro infinitamente mais grave que o meu. Tinha 11 ou 12 anos, estava lá porque tinha se negado durante a vida toda a fazer seu tratamento, que era realmente dolorido.

Aquele dia era um dia D, e àquelas horas de primeiro contato talvez fossem as últimas dela. Ali ela tinha de assinar uma autorização pra que colocassem uma fístula e assim ela pudesse fazer uma cirurgia que lhe salvaria a vida, mesmo com 48% de chances de sobreviver, e ficar escrava eternamente das sessões de diálise. Se não aceitasse, ela poderia esperar as horas para ter um ataque cardíaco, que seria causado pelas taxas de alguma coisa, que eu não me recordo o que era, mas que estava no limite, por isso a urgência da assinatura, a urgência da cirurgia.

Cheguei à enfermaria em um clima nebuloso (acreditem, enfermarias são divertidas). As pessoas que lá estavam já sabiam de toda essa história, menos eu. Comecei a conversar com ela, porque a mãe dela tinha perguntando pra minha mãe qual era o meu problema, e quando as duas descobriram que as duas eram renais e que ambas se chamavam Nayra, era coincidência demais para não serem apresentadas.

Fui logo entender o problema dela, porque eu conheço o meu há apenas três anos, então fico em transe de curiosidade com essas coisas de rim. E fiquei sabendo de tudo que contei há pouco. Perguntei a ela porque, então, ela não assinava logo a autorização (a mãe poderia assinar por ela, mas tinha se recusado porque achava que a filha deveria ser a responsável por escolher seguir lutando contra aquela doença ou...). Ela me disse que não ia assinar, porque a fistula deixaria seu pescoço feio, com as veias grossas, e que isso seria motivo para o namoradinho dela deixar ela. 

Pode até parecer futilidade pra quem não se colocar na idade dela e no contexto do que é o primeiro amor, o mais cego, o mais doentio e talvez o menos saudável de nossas vidas. Argumentei muito com ela sobre isso, mas ali eu vi que não teria sucesso. Argumentei sobre a dor da mãe que estava sem forças até para chorar porque ali poderia acabar uma luta de 12 anos, pela escolha dela, mas ela disse que se morresse seria melhor para ela, que assim poderia descansar. Argumentei sobre a família (acreditem), mas ela tinha um pai que não acreditava na gravidade do problema, e o restante dos parentes não queriam saber dela. Argumentei, argumentei... e nada. Ela e todos ali já estavam desacreditados demais.

E era aquele fluxo de enfermeiros aplicando medicação nela, porque ela teria de estar ‘’no ponto’’ pra cirurgia imediata, caso dissesse o sim. Então, resolvi argumentar sobre sonhos, contanto para ela um pouco da minha história, que eu, assim como ela , também tinha passado parte da minha vida num hospital, pedindo diariamente a Deus pra que me levasse logo dessa vida sem sentido, porque, afinal de contas, quando vc é criança, adolescente não se tem um propósito definido e é na fase em que todos estão ‘’vivendo, brincando’’ e vc está lá no hospital, naqueles dias que não escurecem, recebendo agulhadas sem fim, esperando a hora de ficar bom pra descansar em casa, esperar outra crise e começar tudo novamente. É cansativo, é desestimulante. Foi desestimulante pra mim durante 19 anos...

Perguntei qual era o sonho profissional dela, ela tinha um, mas não lembro qual... E nessa conversa que já durava quase duas horas ela já se sentia à vontade pra me perguntar as coisas, (algo que me fascina, que é ‘’arrancar’’ palavras de pessoas que não falam). Ela disse que me achava bonita. E eu disse que beleza mesmo está na força da gente, que ela não precisava desistir da vida por medo de não ter alguém. Se hoje ela já era completamente sozinha, e só com os sonhos realizados que ela seria verdadeiramente feliz, seria uma profissional, inteligente, que poderia ter o namoradinho que escolhesse. – Ela ficou pensativa. Amoleceu. Vi que ela ali o ponto do tudo ou nada. Nada a convencia. Nada! Nem amor de mãe, que olhava pra ela como se olha um filho indo embora, e olhava pra mim como alguém que por algum motivo estava ali para dizer aquelas coisas para ela. Pra mim não era nada disso, só era angustiante, desesperador ver uma pessoa linda, uma criança, cheia de sonhos, vivendo uma história que eu conheço, se entregando não por não ter forças, mas por não ver motivos em continuar.

Conversa vai conversa vem e eu pedi pra ela assinar. Assinar para ela ver a mãe parar de chorar. Assinar pra poder realizar o sonho de ser acho que professora, se não me engano. Assinar porque a vida vale a pena pelos segundo felizes.

Disse a ela que o que importava na vida, e o que ela ia levar pra sempre era as “cosquinhas” que a mãe fazia nela, era abraço do namoradinho, esses momentos em que ela chorava me contando, quando eu perguntei quais eram as lembranças boas que ela tinha, e pedi pra que por elas, ela assinasse.

Ela saiu da enfermaria levando o soro dizendo que ia ao banheiro e sumiu. Corre enfermeiro pra cá, mãe pra lá, médico pra não sei onde, ninguém achava. A Nayra já conhecia o hospital, assim como eu também, e já sabia qual era o leito que ela ficaria após a cirurgia. E ela estava lá, sentadinha na cama, desmanchando em lágrimas, dizendo que ia operar. Os médicos agilizaram os papéis e ela assinou.

Eu só podia sair da enfermaria em cadeira de rodas (também não se espantem, isso é de praxe), e de repente um enfermeiro chegou com a minha alta (eu podia ficar continuando o tratamento em casa), e junto ele levou uma cadeira pra me levar até o taxi fora do hospital, pensava eu, mas ele me levou no leito dela.

Ela já estava com a batinha pronta pra operar. Ela olhou pra mim como quem agradece sem saber o que dizer. Eu disse que tava indo, mas ia orar pra que tudo desse certo e que ia dar. A mãe dela já não se conteve, e me abraçou chorando, mas disse à mamãe que eu tinha sido abençoada por estar ali e ter salvado a vida da filha dela... só soube disso quando já estava no táxi.

Até hoje não sei se a Náyra sobreviveu, como foi àquela noite, se aquele primeiro encontro foi tão significante e transformador pra ela, assim como foi pra mim. Prefiro pensar que ela está muito bem, saudável, estudando e correndo atrás de realizar seus sonhos.

É bom pensar que esses primeiros encontros não são presentes pra vida, que eles são a própria vida da gente, porque se viva ela estiver, também levará para sempre esse momento, assim como eu...  do dia em que me reconheci.