O Pelé que você vai conhecer
agora foi bom de bola, mas nunca jogou profissionalmente. Amava estar em campo,
mas gerindo o espetáculo, que era o que sabia fazer de melhor. “Pelé do Bariri”
era casado há 23 anos, não tinha filhos, era peladeiro, amigo, íntegro, e
calado, mesmo só falado de futebol. Passou os últimos 34 anos da sua vida
dedicando-se completamente ao funcionamento do Centro Esportivo do Bariri,
cuidando da organização dos campeonatos, onde desde que assumiu, sempre realizou
uma média de quatro competições por ano.
O nome já não desassociava mais.
O “Pelé do Bariri” era quem “pulsava” aquele campo, palco de grandes histórias
e de atuação de grandes jogadores do futebol piauiense, e que teve por período
áureo as décadas de 70, 80 até 2008. Depois disso começou a decadência, e o
Bariri passou por um abalo nos últimos anos. Poucos sabem o porquê, mas a
tristeza de Pelé ao ter perdido sua mãe há dois anos foi sentida no campo e
refletida em campeonatos mais “vazios”. Parecia até que o maior celeiro dos
grandes craques do futebol piauiense estava fadado ao esquecimento.
Recortes
antigos colecionados com carinho pelo coordenador Pelé. Imagem: Náyra Macêdo.
Mas não. Este ano o Pelé já
mostrava sua recuperação emocional, e junto a do Bariri. O campo foi cedido para o Auto Esporte
treinar, e a equipe que estava há 18 anos na obscuridade renasceu direto para a
final do Campeonato Piauiense Sub-18 2012, e conta com garotos que ainda
prometem muito.
Trazer o Bariri “de volta” este
ano parecia uma questão de vida ou morte para o coordenador. Pelé estava obstinado
a realizar o seu maior sonho, que era o de “gramar” o campo. Conseguiu em vida
até ver o projeto ser aprovado. Parou o funcionamento do Bariri, como se para
uma pulsação aguardando pela tal obra.
A pausa foi em julho, mas como
nada aconteceu de lá pra cá, o coordenador não se conteve e deu “vida”
novamente ao campo. O campeonato estava rolando, era meio de semana, período de
definição de tabela e de últimos ajustes do campo para receber a comunidade e
todos os simpatizantes do futebol amador para mais uma rodada no sábado à
tarde... Mas o Bariri teve de parar novamente. Na manhã da quarta-feira (05),
Pelé foi vítima de um enfarte fulminante.
O pensamento de todos era que a
vida de Pelé era o Bariri, e vice-versa. E então, o que fazer? Parar? Não! O
Bariri, com seus mais 5.400 m², com suas recentes
conquistas de iluminação e alambrado e terreno somou à sua história intocável o
legado de Pelé, que foi sua dedicação. A de viver para algo como ele
viveu. Promover uma competição como se fosse a primeira, e a última.
Luiz Alberto da Rocha faleceu aos
56 anos. O Pelé, assim conhecido por todos, cujo apelido “conquistou” ainda na
adolescência, quando nas peladas na comunidade os amigos perceberam e
associaram seu jeito de cabecear a bola, sua melhor qualidade em campo, à do
eterno Rei Pelé, agora acompanha lá de cima a continuação de seu legado.
.
O
palco dos craques
Campo do Bariri, Areião, Campinho
do Pelé, Centro Esportivo do Bariri, Campo Rui Lima. Assim é conhecido um dos campos
mais importantes de Teresina. Lá foram revelados muitos craques, e é onde muito
outros ainda estão sendo moldados. Como um
local predestinado, ou mesmo “abençoado” para os bons de bola e peladeiros, o
Bariri “é como as ondas do mar, não para nunca”, assim definido em um dos
recortes de jornal colecionado por seu ex-coordenador.
Ter sido palco de grandes
decisões enche de orgulho a comunidade que, religiosamente comparece para
acompanhar os campeonatos, que tem a tradição de homenagear em seus troféus
craques, jornalistas, apoiadores e personalidades.
Das lembranças mais vivas de quem
acompanha a história do Bariri sob a gestão de Pelé estão as clássicas decisões
entre Cerrajão e Bariri, sempre com recorde de público. Outro fato marcante para
todos foi a decisão entre São José e CSA, a qual o dirigente do São José
conhecido como Cesinha faltou à final e foi suspenso por Pelé onde ficou por dois
anos sem disputar jogos no local.
Dentre os craques contemporâneos
dessa gestão do coordenador Pelé, estão: Batistinha (River, Flamengo e Sport),
Índio (River), Jorginho (Flamengo) e Boiadeiro (Piauí).
E na lista do grandes jogadores
que por lá passaram estão nomes como o de Sima (Piauí, Sport, River,
Tiradentes, Bahia), que é anterior ao Pelé, mas que não pode deixar de ser
lembrando quando o assunto é Bariri, o craque revelado lá é o único jogador
brasileiro que conseguiu a façanha de ser o maior artilheiro da história de
três clubes.
Dentre outros que também não
podem deixar de serem citados estão o Bira (Piauí, River), Nonato Leite
(Corinthians), e o homenageado que dá nome ao o campo, Rui Lima, craque que
passou pelo Piauí, Marília, e Juventus de São Paulo.
Para
ficar de vez na história
O feito de Pelé foi grande, e homenagear
sua história de vida é a pretensão de alguns daqui pra frente. A primeira delas
será a tentativa de mudança do nome do Campo Rui Lima- Bariri para Centro
Esportivo Luís Alberto da Rocha- Pelé, ainda este ano.
Seu
“Biba”, amigo de Pelé mostrando com orgulho a história do Bariri logo ao fundo.
Imagem: Náyra Macêdo.
Quem está provisoriamente a cargo
de continuar o trabalho de Pelé é o seu amigo “Biba”, companheiro de pelada e de
trabalho desde a década de 60. Biba, que dedica o mesmo amor ao campo está à
frente da elaboração de um projeto de reforma do Bariri, que vai contar com a
construção de dois vestiários, grama e alambrando, e que tem um orçamento
previsto entre 200 a 300 mil reais.
E justificando as palavras de Bia,
“O amor pelo Bariri não acaba. Ele não pode parar”, as atividades no Campinho
do Pelé retornam nesse sábado (22), com a continuação do Campeonato Quarentões
do Bariri 2012.



