sexta-feira, dezembro 20

O Jornalismo e a minha motinha

Pilotar uma moto não é difícil. Assim como fazer jornalismo também não é. A dificuldade existe no contexto em que as duas ações são realizadas.

Ao me deslocar de casa para o trabalho preciso de conhecimentos simples sobre minha 'cinquentinha'. Onde ligar, frear, acelerar ou sinalizar.


Na redação também necessito de conhecimentos básicos para 'executar' o jornalismo: não me acomodar. Apurar. Escutar. Digitar. Publicar.

Mas, para exercer ambas as atividades: pilotar minha motinha e fazer jornalismo, necessito de esforços sobre-humanos. Infelizmente!

Explico.

No trânsito, as cenas mais comuns: congestionamentos, fileiras carros e as motos se entrelaçando entre eles, pois, segundo a lógica mais escutada pelos ouvidos errados:  "Moto a gente tem pra isso mesmo - pra não precisar ficar parado''.

Pois eu fico. Fico e sou obrigada a me constranger por ficar. Escuto horrores. Sou motivo de piadas. A sensação é a de que incomodo bem mais aguardando no congestionamento na minha missão de não querer ser ' A espertinha' do que fazendo barbeiragem.



Meu esforço sobre-humano nas redações da vida acontece pelo mesmo motivo. Acho errado lesar o colega ao ser preguiçosa e obrigá-lo ao fazer meu trabalho. #BUUUT Um determinado colega acha que isso é boboquice minha.

Assim como é 'coisa' minha não inventar 'falas' em minhas matérias ou não publicar o que não é meu sem prévia autorização... Isso, para alguns, é ‘idealismo’, pois ‘todo mundo faz’.

Escutar isso também me constrange.

Assim como no trânsito fazer o certo é motivo de chacota, em muitos momentos, no jornalismo também é.

Evitar os atropelos 'literais' na vida também cansa bastante. Inevitavelmente, todos os dias, alguém tenta de forma inexplicável pôr fim à minha vida por motivo de: eu ser uma motociclista.

Eu sei. Também acho difícil de entender essa lógica. Mas faço minha parte. Saio de casa todos os dias sabendo que, se eu não evitar que me atropelem, não poderei contar mais nada no meu blog .#ow



No jornalismo tento, também com o mesmo cansaço, me esquivar dos julgamentos. Escutar até na sala de aula que, por mais que você tente, você será corrompido pelas mazelas do capitalismo e a bruxa do 71, também não deixa de ser um atropelo que eu também tenha que tentar me esquivar.

Na junção das duas coisas, certa vez,  numa reportagem, um personagem disse ''As pessoas precisam, de uma vez por todas, entender que as regras de trânsito não são uma via de punição e sim de proteção à vida".

O mesmo, acho eu, que vale para o jornalismo. Não se render as 'punições' dos julgamentos e perseverar em sua conduta ética também não deixa de ser uma preservação, desta vez, do bom jornalismo ou do jornalismo ‘ideal’.

Geralmente penso em tudo isso escrito ai em cima paradinha num desses congestionamentos da vida.  Outro dia, depois de um fulano jogar um carro  em mim em um retorno, outro não esperar eu completar uma rotatória, e mais  lá na frente mais um praticamente montar em minha garupa, pensei: Desisto!

“Estar” motociclista é ruim, arriscado e não é tão fácil o quanto parece pois tentam te obrigar de todas as formas – mesmo – a fazer o errado.



Mas desistir significa largar minha cinquentinha de lado e voltar a usar o bom e velho busão. Não deixaria, assim, de fazer uso do trânsito. Apenas deixaria de encará-lo de frente. 

Em outros congestionamentos fico me questionando se também não existe opção de largar o que é ruim no jornalismo de lado, sem ter que deixar de fazer 'uso' dele. Isso porque, mesmo sendo também muito desgastante, ele é, independente de qualquer coisa, infinitamente gratificante.


"A natureza do jornalismo está no medo. O medo do desconhecido, que leva o homem a querer exatamente o contrário, ou seja, conhecer." (Felipe Pena)


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