quarta-feira, julho 6

Alguns minutos de atenção, por favor?


" Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto" DRUMMOND

Ver e conviver com os mais variados problemas sociais fica bem distante de senti-los. Há mais ou menos um mês as vidas de duas crianças estão mexendo com as emoções de algumas pessoas que moram próximas a mim. Só tive contato com essa história através de alguns relatos pessoais que me contaram e que vou passá-los pra vocês.

A primeira pessoa que me abordou perguntando se eu já os tinha visto foi minha cunhada.

- Náyra, quando você voltou da autoescola viu aquelas duas crianças sentadas em frente ao teatro?
- Não vi.
- Ah, elas devem ter saído pouco antes de você passar por lá.

(Era 14h, e a calçada desse teatro se resume a um meio-fio com uma avenida movimentadíssima e muito perigosa).

Fiquei curiosa e resolvi saber mais.

- Mas o que tem essas crianças Rebecca?

- São dois meninos, um de seis e outro de quatro anos, o mais velho estava de cabeça baixa chorando e outro tava puxando uma latinha com uma corda, que ele me disse ser o seu carrinho. Perguntei por que ele estava triste, e ele só respondeu: - “To com fome e meu irmão também”. Trouxe eles aqui em casa dei água e o almoço pra eles... estavam sem comer desde o dia anterior.

Confesso que achei tocante, mas no vai-e-vem da correria passou longe de me emocionar. Mas quis saber da história deles; por que eles estavam nessa situação. E numa reunião de família no almoço de domingo voltou-se a falar deles, dessa vez foi minha mãe:

- Ontem o mais velho carregava um carro-de-mão maior que ele, tinha uns 40 kg, cheio de entulho pra vender. Perguntei onde estava o pai deles e um respondeu que ele estava preso. E pela mãe, o outro disse “Ela é drogada”.

Ai me interessei mesmo, quis saber por que eles apareceram aqui no bairro, o que estava acontecendo, e o papai me explicou:

- Esses meninos são obrigados a pagar o aluguel da casa que moram, pois a mãe gasta tudo com crack, por isso eles passam o dia catando e vendendo entulho, mas com o dinheiro eles não podem comprar uma água. Agora está todo mundo ajudando, um dia eu dou o almoço, no outro a vizinha, no outro a dona Maria do Bar, porque pelos menos assim a gente ajuda um pouco e não vemos mais eles chorarem.

Escutei tudo, mas o fato era: nunca tinha visto essas crianças, e também não fui atrás, até por que passo o dia fora de casa. Agora estou de férias, e no meu primeiro dia de diversão dei uma pequena volta no bairro pra "pegar" o sol e ver gente, pois férias mofadas é o fim.

Logo de cara vi esses dois pequenos, na verdade tentei ver, pois o primeiro ia escondido atrás do tal carro-de-mão e o outro zanzando pela rua de um lado pro outro, desviando dos carros e catando o que encontrava. Fiquei paralisada com cena, pois a história deles me veio de imediato e eu só conseguia pensar na distoância que estava na frente dos meus olhos: crianças com suas infâncias roubadas, trabalhando para o sustento do vício da mãe e pelos erros do pai, em frente a um campo de futebol, no horário que as crianças "normais" estavam todas jogando bola. 

Vi o pequeno parando um pouco e olhando alguns dribles que daquele anglo dava pra ver. Depois ele seguiu e eu continuei paralisada, percebendo que há poucos metros deles também tinha uma escola, uma biblioteca comunitária, muito boa por sinal, um teatro, um clube. Tudo extremamente palpável, pois tudo está na mesma região, coisa de 20 a 50 metros que separam, e todos os locais são para crianças carentes como eles, mas que eles não podem desfrutar porque eles tem o dever de estar sustentando uma casa, mas não podem resolver a vida sozinhos, e nem estão em condições de escolherem nada.

Voltei pra casa. Essa cena que ficou fotografada durou uns seis minutos, mas o impacto dela dura até agora, e vai permanecer, pois eu senti a realidade deles, e sinto mais ainda não poder fazer nada, e sinto mais ainda porque quem pode fazer algo trata os problemas sociais através de gráficos, cálculos de orçamento, e toda uma estratégia mecanizada que não permite vê-los com o sentimento.

"A parte mais importante do progresso é o desejo de progredir." (Sêneca)

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