sexta-feira, julho 27

Qual o sabor do próprio veneno?



Nada melhor pra desempoeirar o blog do que com uma inquietação de verdade, do tipo, sabe quando você quer dizer o que pensa, sem necessariamente dá sua opinião? - Não? Pois é. Está feita a inquietação!

Nem fiz esforço pra não escrever sobre isso, por que parece que todos querem dá sua opinião e não seria diferente logo comigo. Desde que as seleções feminina e masculina de futebol estrearam nas olimpíadas, que os comentários que mais se vem, lem, escutam, é que, por exemplo, após a Globo mostrar os lances desses jogos e creditá-los, alguns dizerem que ''Pô, Globo, você não precisa disso". "Chupa, Globo". "Globo, cadê a sua hegemonia?", e enfim, todos os outros, inclusive o de vocês que estão lendo que foram compartilhados esses dias.

A Globo está provando do próprio veneno. Nos anos 80 quem brigava pela liderança no esporte era a Band e a Record. Na década seguinte a Band passou quase quinze anos como a emissora do esporte brasileiro. A história mudou quando a Globo além de ter sido pioneira em fechar direitos de transmissão aqui, ainda fez questão de valorizá-los cada vez mais, e mais. 

Mas a emissora se focou no futebol, no show, no espetáculo, e no não-jornalismo esportivo. Tanto que perdeu o leilão da transmissão dessa olimpíada de Londres, que foi vencido pela Rede Record, mas pareceu não se importar e festejou a transmissão da Taça Libertadores da América, com toda pompa da transmissão que a própria faz.

É fácil se criticar a Record, quando você fica limitado a imaginar que você não ''coloca no 10 aqui'', mas ela é a segunda maior rede de televisão do país, e deu um show de transmissão dos jogos olímpicos de inverno de Vancouver, e dos jogos panamericanos. Fato que, no sudeste, gerou/gera uma identificação da emissora como a que fala de todos os esportes. O que contraria todos os esforços (ou não) da Rede Globo, de começar essa década como a rede somente do Futebol.

Em contrapartida a esse processo da Globo, vale destacar que o canal Sportv, que é da GloboSat, se destaca não só pela quase ‘’democracia’’ em relação às transmissões desportivas, quanto ao próprio fazer jornalístico, esse que a globo nem sabe mais o que é, quando se trata de transmissões esportivas.

A maior emissora do país, que há décadas atrás acabou até com o sistema de troca de imagens, decretando morte à concorrência, hoje precisa passar pelo constrangimento visto até na expressão dos seus próprios âncoras, de agradecer o uso de imagens a quem ela proibiu e proíbe de trabalhar.

Não existe período melhor para refletirmos sobre onde começa e onde terminam os direitos dos donos desses eventos esportivos, que não são necessariamente jornalistas, mas que limitam o acesso destes ao direito ''nosso'' constitucional à informação. 

- O que é jornalismo?o que é show? Onde acaba o negócio, onde começa o interesse de todos? Quem sabe se o ''todos'' já não é mais o país do futebol? Nem precisa pensar, não é. Não somos mais tão limitados assim. 

Não é o ideal. Não é legal dizer que você simplesmente pode não colocar na Record e assistir as olimpíadas digitais pela internet, pelo Sportv, Interativo, quando ''somos'' um país com quase 200 milhões de habitantes em que menos de cinco milhões tem acesso a essas opções.

Como também AINDA não é confortável pra nós vermos a Rede Globo, que tem a excelência de ser a segunda melhor do mundo, não tratando com toda a sua grandeza do maior espetáculo esportivo mundial.

E a maior ironia disso tudo é que mesmo as Olimpíadas de Londres 2012 sendo os jogos digitais, em que temos infinitas formas de acompanhá-lo, a sensação é de que ele está tão inacessível quanto um jogo do Palmeiras pelo Brasileirão transmitido ao vivo pela Rede Globo.


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